Como o isolamento social pode agravar os transtornos alimentares?

No Brasil, segundo dados da própria OMS, 4,7 da população sofre de transtorno de compulsão alimentar (TCA). Esse número é quase duas vezes maior que a média mundial, que gira em torno de 2,6 da população. No país, a incidência maior é em jovens mulheres de 14 a 18 anos.
Isolamento social e alimentação

Os recentes artigos publicados sobre este assunto sugerem que pacientes com transtornos mentais estão sob maior risco durante este período de isolamento da quarentena, inclusive aqueles com transtornos alimentares.

Contudo, ainda é muito cedo para falar qual o impacto que o período de isolamento social terá sobre eles. No entanto, há hipóteses e suposições sobre como alguns fatores poderiam interferir nesses quadros.

“Alguns trabalhos sugerem que a preocupação com o ganho de peso na ausência de atividade física possa desencadear um transtorno alimentar, assim como o maior tempo gasto nas mídias sociais. Estes pacientes também podem apresentar problemas de regulação emocional”, diz Paula Benevenuto Hartmann, mestranda em Psiquiatria e Saúde Mental na Universidade do Porto, em Portugal.

Segundo a psiquiatra, que também é conteudista do Portal de Notícias da PebMed, em tempos de insegurança, a relação com a comida pode se agravar ainda mais. Por exemplo, os pacientes cujo padrão de comportamento alimentar é inflexível e rígido podem ter dificuldade de encontrar aquilo que geralmente consomem. Por outro lado, permanecer em casa o tempo inteiro também pode aumentar os episódios de compulsão.

“Além disso, devemos nos lembrar que neste momento o acesso aos hospitais, internações e consultas presenciais pode se encontrar dificultado, sendo este um fator adicional”, complementa.

Isolamento social como gatilho para má nutrição

A nutricionista Noadia Lobão, especialista em Nutrição Clínica pela Associação Brasileira de Nutrição (ASBRAN), pós-graduada em Obesidade e membro do movimento Slow Food Brasil, concorda que os fatores negativos e adversos decorrentes do isolamento da pandemia podem agir como gatilhos e levar indivíduos com propensão aos transtornos alimentares a desenvolver a condição.

“A ameaça de sofrer com o contágio do vírus, a insegurança, a preocupação sobre o que poderia acontecer com os entes queridos, aumentaram os hormônios do estresse. Todos esses fatores somados causam grandes impactos, afetando a bioquímica do organismo. E essa situação é agravada pelo isolamento social. Instintivamente, o ser humano procura soluções para todo este quadro de sofrimento e, como o alimento traz um prazer e um bem-estar imediato e momentâneo sem igual, pode aumentar o aporte energético e também causar a compulsão alimentar”, explica.

Orientações aos profissionais de saúde

O tratamento deve ser realizado com o acompanhamento de uma equipe multiprofissional, que costuma envolver um médico psiquiatra, psicólogo, nutricionista e, quando necessária uma internação, um médico clínico e uma equipe de enfermagem.

O profissional de educação física também pode ser envolvido, como nos casos de obesidade, por exemplo. A abordagem geralmente envolve psicoeducação para o paciente e seus familiares, psicoterapia para o paciente (e se necessário, terapia de família) e, em alguns casos, medicação.

“O tipo de medicação pode mudar bastante, se estamos falando de anorexia, obesidade ou compulsão. Em relação à psicoterapia podemos notar diferentes técnicas, como a cognitivo-comportamental (TCC) e a psicoterapia psicodinâmica, sendo que dependendo do caso a abordagem pode ser individual ou em grupo”, explica Paula Hartmann.

Acompanhamento à distância

Neste contexto atual, a telemedicina tem conseguido grande destaque. Com todas as vantagens e limitações que possui, permite o contato com profissionais especializados, como psiquiatras ou psicólogos. O médico generalista ou de outra especialidade, ao se deparar com pacientes apresentando transtornos alimentares durante o isolamento, pode encaminhá-lo para um colega psiquiatra.

“É necessária uma avaliação, pois para cada transtorno do grupo é possível adotar uma abordagem diferente, como medicações ou atendimento em psicoterapia. Já existem alguns trabalhos que começaram a investigar principalmente as técnicas de psicoterapia cognitiva-comportamental na forma de aplicativos, por exemplo. É importante notar que alguns pacientes, como aqueles com anorexia, podem não se interessar por um tratamento ou até oferecer resistência a ele. Uma estratégia aí é sugerir o encaminhamento ou iniciar a abordagem através das comorbidades que esses pacientes possam apresentar, como transtornos ansiosos ou transtornos do humor”, ressalta a psiquiatra.

Educação nutricional contra transtornos alimentares

Já o tratamento nutricional dos transtornos alimentares é dividido em duas etapas, educacional e experimental. Deve-se conduzir uma detalhada anamnese sobre dos hábitos alimentares do paciente e histórico da doença. É importante avaliar medidas de peso e altura, restrições alimentares, crenças nutricionais e a relação com os alimentos.

A educação nutricional abrange conceitos de alimentação saudável, tipos, funções e fontes dos nutrientes, recomendações nutricionais, consequências da restrição alimentar e das purgações. Na fase experimental, trabalha-se mais intensamente a relação que o paciente tem para com os alimentos e o seu corpo, ajudando-o a identificar os significados que o corpo e a alimentação possuem.

“O tratamento deve visar à promoção de hábitos alimentares saudáveis, a cessação de comportamentos inadequados e a melhora na relação do paciente para com o alimento e o corpo”, conclui a nutricionista Noadia Lobão.

FONTE: PEBMED.COM.BR

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